
RICA, este texto retirei daqui: http://allthosecanthelps.wordpress.com/
“Jesus te abençoe!”
Sons estranhos vindo do quarto de brinquedos. A Catarina brincando com a babá, dando bênção na boneca. Uh-oh.
Eu evito confronto por natureza. Evito não, fujo, supersônica. Confronto com babá, então, melhor nem pensar. Mas uma DR se fazia necessária. Ensaiei mentalmente o texto, esperei uma oportunidade chegar… E esperei, esperei e deixei passar. Se a menina não saiu louvando Jesus de novo, meno male.
Mas hoje eu flagrei pelo meio uma conversa sobre algo que “… o papai do céu não gosta”. “E quem é o papai do céu, Nana?”. A explicação não chegou a vir, porque quem tinha chegado era eu, com a minha cara de espanto. De hoje, então, eu não escapo.
“A Conversa” sobre religião já rolou aqui em casa de uma forma meio light. Ela sabe que nós somos ateus, sabe que não queremos que a Catarina tenha educação religiosa (leia-se: doutrinação por terceiros), mas esses lapsos fazem parte da conversa cotidiana de uma pessoa que é religiosa. Eu só nunca pedi expressamente, com todas as letras, que ela evite mencionar temas religiosos porque nós iremos ensinar sobre todas as religiões na idade apropriada, não agora, que a Catarina é pequena e não sabe discernir entre a madrasta da Branca de Neve e o “papai” habitante das nuvens.
Escrevendo o post, deu vontade de olhar para mim mesma e dizer “viu como é fácil falar?”. Mas não é. Não é nada fácil para mim. Tanto que nas três horas que levei para começar a escrever e publicar, a babá precisou sair e eu… escapei.
Mas só por hoje.
*
Para falar a verdade, eu não entendo como ela não deu uma tirada antológica, já que a única versão de Jesus que ela já conheceu é uma imagem que faz a alegria das crianças da família paterna há três gerações.
Minha sogra tem um Menino Jesus sentadinho num banco, vestindo uma camisolinha e fazendo aquele gesto dos dois dedos com a mão direita. Contam, e eu pude comprovar com a Catarina, que todas as crianças pedem para levantar a camisolinha para ver as partes pudendas do bebê: “Mamãe, porque ele não usa cueca, hein?”. Além do pinto divino, outra boa história é a de um primo, hoje adulto. Ao ver o gesto da mão, perguntou, empolgado: “Quem vai fazer dois aninhos?”.
Por ora, para a minha filha, esse grau de inocência é mais que suficiente.
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